Há algum tempo atrás, um pequeno banco de jardim, localizado numa calma e silenciosa vila, era regularmente ocupado por um velho homem, de capote, boina e cigarro sempre na boca (pode-se dizer que era fumador compulsivo). Ele ali se sentava, desde o início da tarde até ao sol se pôr e com um pequeno rádio de cassetes, passava horas e horas a ouvir a mesma e melodiosa música: Fur Elise. Não se sabia ao certo o porquê de tão repetitivo e monótono hábito. Nunca ninguém se atrevera a perguntar-lhe o motivo. Achava-se que não seria correcto estar a meterem-se na vida de tão silencioso, pacato e tranquilo homem. Era algo que talvez fosse considerado de "fora do normal".
Certo dia, num fim de tarde de verão, um rapazinho de cabelos russos, muito bem vestido, cara lavada e a cintilar, senta-se no banco, desafiando o "fora do normal". Dirigindo-se ao velho, pergunta-lhe com a mais bela das inocências e das intenções:
- Como te chamas?
O senhor, apagando imediatamente o cigarro, olha para o menino, espantado.
- Eu... eu não sei o meu nome. - respondeu no seu tom de voz grave, tossindo catarro de uma forma persistente. - Eu, eu não me lembro...
- Que pena... Olha, eu chamo-me Tomás e acho que a música que estás a ouvir é muito bonita. Porque é que a ouves?
- Também não sei... Mas algo em mim me diz que é por causa de alguém que perdi...
- Olha, estás de capote porquê?
- Não sei... Talvez porque me dá conforto...
O rapaz, intrigado com todas estas respostas, começou a achar que o velhote seria um louco qualquer que não sabe quem é, quer dizer, quem era. Contudo, achou que alguém como ele estava a precisar de se sentir acarinhado e especial. Por isso, sem hesitar e num tom de voz de menino que era, pergunta-lhe:
- Olha, tu queres ser meu amigo?
- Pode ser... - respondeu o velho homem do capote, que pela primeira vez em muitos anos sorrira, num sorriso aberto e sincero, que iluminava todo um coração.
De uma forma um tanto ou quanto esquisita e pouco usual, uma amizade se formou. Teremos coragem de largar o preconceito e começar também nós a sentir o verdadeiro poder de termos um amigo ao nosso lado? Acham que vale a pena pensar nisto?
Obrigado por lerem.
TIAGO
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